A Geely fechou acordo para ocupar a linha de montagem Body 3 da fábrica da Ford em Almussafes, na Espanha, enquanto no Brasil a montadora chinesa desembarcou 5.101 unidades do EX5 EM-i de uma só vez no Porto de Paranaguá — manobra para estocar veículos antes da alta de impostos de importação prevista para julho de 2026. A dupla movimentação revela a estratégia global da fabricante: produção local fora da China para escapar de tarifas e garantir competitividade em mercados estratégicos.
Da China para a Europa: Geely ocupa espaço deixado pela Ford na Espanha
A fábrica de Almussafes, na região de Valência, estava com a linha Body 3 parada. Com o acordo firmado pela Geely, a estrutura deverá ser reativada para produzir SUVs eletrificados destinados ao mercado europeu, segundo informações publicadas pelo jornal espanhol La Tribuna de Automoción com base em fontes ligadas às negociações.
O modelo planejado é um utilitário esportivo identificado internamente pelo código 135, baseado na plataforma GEA — arquitetura global da Geely para veículos eletrificados. O SUV deverá ser oferecido em três variantes: híbrida convencional, híbrida plug-in e totalmente elétrica. A mesma plataforma já está em uso no EX5 EM-i que chegará às ruas brasileiras.
Nos bastidores, a própria Ford avalia usar a plataforma GEA em futuros projetos. As duas montadoras discutem desde o início do ano uma parceria mais ampla envolvendo compartilhamento de tecnologia, redução de custos industriais e cooperação em eletrificação e condução autônoma. A Ford, porém, não confirmou oficialmente as negociações e classificou as informações como especulação.
O movimento da Geely em solo espanhol não é isolado. A rival SAIC Motor também avalia instalar operação industrial na cidade portuária de Ferrol, na Galícia. O governo regional intensificou contatos com fabricantes chinesas para transformar a área em polo automotivo voltado a veículos eletrificados — aproveitando fábricas ociosas, mão de obra qualificada e logística já consolidada que marcas tradicionais como Ford e Nissan deixaram para trás ao reduzir linhas de combustão.
Se o acordo evoluir para uma parceria industrial completa, a expectativa é de que a fábrica volte a produzir mais de 300 mil veículos por ano — patamar registrado antes da pandemia — recuperando empregos e reaquecendo a cadeia automotiva de Valência.
Brasil: 5.101 SUVs desembarcam de uma vez para fugir do imposto de 35%
No Brasil, a Geely chamou atenção após o Porto de Paranaguá divulgar imagens do desembarque recorde de 5.101 unidades do EX5 EM-i em uma única operação. A chegada em massa tem timing calculado: o governo federal antecipou o cronograma de alta tarifária, e a partir de julho de 2026 todos os eletrificados — elétricos, plug-ins e híbridos convencionais — pagarão alíquota unificada de 35% de imposto de importação.
Hoje, os híbridos plug-in como o EX5 EM-i já pagam 28% — percentual que sobe para 35% em menos de um ano. Antecipar estoques permite à Geely manter preços mais competitivos enquanto a produção nacional no Paraná ainda não está em plena operação. A tendência é que outras montadoras chinesas repitam movimentos semelhantes nas próximas semanas.
O EX5 EM-i será produzido em São José dos Pinhais (PR) pela parceria Renault-Geely do Brasil, utilizando a estrutura industrial já existente da Renault. O modelo combina motor 1.5 aspirado a gasolina com conjunto elétrico, entregando 262 cv de potência combinada e torque de 38,7 kgfm. O 0 a 100 km/h é atingido em 7,8 segundos.
A autonomia é um dos principais trunfos do SUV: dependendo da versão, o EX5 EM-i alcança até 1.300 km combinados. As versões de entrada usam bateria de 18,4 kWh, enquanto o topo de linha recebe conjunto de 29,8 kWh, permitindo percorrer até 112 km exclusivamente no modo elétrico.
O que a chegada da Geely à Europa e o estoque no Brasil significam para o consumidor brasileiro?
A produção do EX5 EM-i no Paraná é decisiva para o mercado nacional. Veículos fabricados no Brasil com índice mínimo de conteúdo local ficam isentos das tarifas de importação — o que pode reduzir significativamente o preço final ao consumidor em comparação com as unidades importadas da China que chegaram agora ao Porto de Paranaguá.
O modelo concorre diretamente com SUVs médios já consolidados no Brasil, como Jeep Compass, Volkswagen Tiguan e o próprio Renault Austral. Com autonomia combinada de até 1.300 km e produção local prevista, o EX5 EM-i tem potencial para pressionar preços e forçar as rivais a acelerarem suas próprias versões eletrificadas no segmento.
Para quem acompanha o mercado automotivo brasileiro, o recado é claro: a Geely não está apenas importando carros — está construindo uma base industrial e logística no país para competir no longo prazo, independentemente do nível das tarifas de importação.



